2 de novembro de 2013

Bulimia e anorexia nervosa:


Por MADSON MORAES                                                                  Foto: Thinkstoc
O dado é preocupante: casos de bulimia e anorexia nervosa são responsáveis por uma internação a cada dois dias nos hospitais que atendem pelo SUS no Estado de São Paulo. O balanço foi divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde em outubro de 2013. Apenas nos primeiros sete meses do ano foram 97 internações por causa dos transtornos alimentares. Em 2012, foram 165 pacientes internados e 1.220 que fizeram tratamento ambulatorial no Estado. As internações computadas nos 7 primeiros meses de 2013 correspondem a 58% do total de internações do ano passado.
A rapidez no diagnóstico é um fator determinante para os tratamentos da bulimia e da anorexia, mas o problema é identificar os sinais, pois os transtornos são complexos e multifatoriais. O nutricionista especialista em transtornos alimentares Cezar Vicente Jr, que trabalha no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Vila Caiúba, em São Paulo, explica que tanto anorexia nervosa quanto a bulimia são duas doenças psiquiátricas graves com alto índice de mortalidade.
'Ambas não são frescuras, nem o jeito da pessoa, nem algo que passa. São doenças sérias e graves que afetam homens e mulheres', explica Cezar, que é membro do Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares (Genta).
São 'doenças de mulheres'?
Por serem transtornos alimentares que acometem mais mulheres, podemos dizer que tanto a bulimia como a anorexia nervosa são 'doenças de mulheres'? Cezar explica que esse tipo de afirmação não é um consenso médico.
'Em muitas matérias vejo isso escrito que bulimia e anorexia são apenas doenças de mulheres. Mas não é um consenso médico. Eu, enquanto profissional que trabalhei atendendo por um bom tempo homens com anorexia/bulimia nervosa, acho que essa colocação é muito prejudicial para eles. Muitos não procuram ajuda porque sentem vergonha de ter 'uma doença de mulher'. Sempre esses assuntos são apenas associados às mulheres, mas na realidade não é', pontua o especialista.
E o nutricionista complementa o raciocínio: 'Só para você ter uma ideia prática do impacto disso, enquanto os atendimentos de mulheres com essas doenças são majoritariamente adolescentes e mulheres adultas jovens, a maioria dos homens que eu já tive contato com transtornos alimentares estava iniciando o tratamento na média de 40 anos, a maioria desenvolveu na adolescência', explica o membro do Genta.
'Distorção da imagem corporal'
Muitas mulheres se olham no espelho e, mesmo magérrimas, se acham gordas. Essa distorção da imagem corporal, explica Cesar, é uma das principais características dos transtornos alimentares, implica em muito mais do que apenas 'se ver' gorda, mas envolve pensamentos e sentimentos com relação ao corpo. 'A pessoa realmente se acha gorda mesmo que esteja com um peso muito baixo. É importante lembrar que pessoas com bulimia nervosa possuem um peso normal ou até sobrepeso, mas também têm distorção da imagem corporal, ou seja, se percebem muito maiores do que realmente são', explica o nutricionista.
Ele ressalta que há fatores sociais importantes quando falamos sobre transtornos alimentares. 'Um deles é definição de padrões de beleza mais rígidos para mulheres do que para homens. Embora as exigências de padrões masculinos estejam mais próximos dos femininos atualmente, a cobrança por um corpo perfeito ainda é muito maior para as mulheres', pontua Cesar Vicente Jr, que respondeu a seguir 10 questões sobre ambos os transtornos.


Diferenças entre bulimia e anorexia nervosa
Cezar Vicente Jr: 'De uma maneira simples, a anorexia nervosa é uma dificuldade muito grande em se alimentar por conta de uma recusa em manter um peso mínimo saudável. No caso da bulimia, há uma dificuldade extrema em se alimentar e até as tarefas mais simples são um grande desafio. Uma das principais diferenças entre as duas doenças é o fator peso. Uma pessoa com anorexia nervosa apresenta baixo peso na grande maioria das vezes enquanto uma pessoa com bulimia nervosa pode ter um peso considerado adequado ou até mesmo sobrepeso ou obesidade'.

Uma pessoa pode ter anorexia e bulimia ao mesmo tempo?
Cezar Vicente Jr: 'Não. A confusão muitas vezes é devido ao fato da maioria das pessoas associarem a bulimia nervosa ao vômito, mas ambas as doenças (anorexia nervosa e bulimia nervosa) podem apresentar esse comportamento. Não é sua presença ou ausência que determina ou diferencia estas doenças'.

A bulimia é uma doença mais fácil de tratar do que a anorexia?
Cezar Vicente Jr: 'Todos os transtornos alimentares são doenças de difícil tratamento. Em minha opinião, não é o diagnóstico que diz o grau de dificuldade no tratamento, mas sim o grau de severidade da doença. É importante falar também sobre a prevenção dos transtornos alimentares. Diversos estudos mostram que falar sobre transtorno alimentar (aula ou palestras sobre o assunto bulimia/anorexia), suas características e consequências, entre outros pontos, aumenta o risco de desenvolver transtornos alimentares.
'Vários pacientes que já acompanhei fazem referências aos métodos inadequados para controle do peso que utilizam por terem 'aprendido' na novela ou em uma revista. Portanto, o melhor jeito para prevenir transtornos alimentares é falar sobre autoestima, alimentação saudável e aceitação corporal sem falar sobre os transtornos alimentares diretamente'.

Em qual a faixa etária esses transtornos alimentares mais ocorrem?
Cezar Vicente Jr: 'No geral, os transtornos alimentares se desenvolvem entre 15 a 24 anos. Mas há casos em que a pessoa só busca tratamento bem depois, tendo convivido com o problema por anos'.

Porque a prevalência é maior em mulheres do que em homens?
Cezar Vicente Jr: 'Há fatores sociais importantes quando falamos sobre transtornos alimentares. Um deles é definição de padrões de beleza mais rígidos para mulheres do que para homens. Embora essas exigências de padrões masculinos estejam mais próximos dos femininos atualmente, a cobrança por um corpo perfeito ainda é muito maior para as mulheres. Isso tem como uma consequência direta a prática de dietas, um dos maiores fatores de risco para transtornos alimentares, para atingir esse 'ideal''.
'Como mulheres são socialmente mais pressionadas para estar dentro de um padrão de corpo, logo elas praticam mais dietas para isso. O mais preocupante é que a prática de dietas, especialmente no mundo feminino, não é mais normal e sim normativa, ou seja, quase uma regra', ressalta.

Em 70% dos casos há predisposição genética'. Até onde isso é verdade? Cezar Vicente Jr: 'As doenças psiquiátricas possuem um forte componente genético envolvido. Só para ilustrar a veracidade: entre os maiores fatores de risco para transtornos alimentares está a prática de dietas restritivas e exigências com relação ao corpo. Uma grande parte das mulheres está exposta a estes fatores, mas apenas uma pequena parcela delas desenvolve um quadro completo de transtorno alimentar. Isso se explica parcialmente pelo fato de apenas uma pequena parte delas ter essa predisposição'.


Quais outras causas para o surgimento dos transtornos alimentares?
Cezar Vicente Jr: 'Não podemos eleger uma causa única para o desenvolvimento dos transtornos alimentares, existem muitos fatores envolvidos. Dizemos que a causa é devido a múltiplos fatores associados, além dos genéticos, socioculturais, exposição frequente de 'corpos perfeitos' e o medo de ser gordo, medo este introjetado diariamente nas pessoas.
'Outras causam pode ser familiares, como grandes conflitos familiares onde pais são muito críticos com relação à alimentação e corpo dos filhos. Sem contar os fatores psicológicos como baixa autoestima, perfeccionismo, impulsividade. Há, por fim, os fatores biológicos como alterações no metabolismo de alguns neurotransmissores como a serotonina e noradrenalina, por exemplo'.

Como identificar uma pessoa com bulimia ou anorexia?
Cezar Vicente Jr: 'Alguns sinais podem ajudar os familiares a identificarem pessoas com algum transtorno alimentar como a perda de peso rápida ou flutuações drásticas de peso, a preocupação com o peso, com alimentos, com os rótulos dos alimentos e dietas. A pessoa evita refeições e situações que envolvam comida, há a ingestão excessiva de líquidos ou negação de fome, a atividade física é excessiva ou muito rígida, e ocorre ainda o isolamento dos amigos e das atividades usuais.
Pode acontecer ainda vômitos autoinduzidos ou abuso de laxantes, diuréticos e o uso de remédios para emagrecer. O diagnóstico é feito por um médico psiquiatra. Observando os sintomas é possível perceber o transtorno alimentar antes que evolua para um quadro completo'.

Como é realizado o tratamento para bulímicos e anoréxicos?
Cezar Vicente Jr: 'O tratamento precisa ser realizado por uma equipe que envolva o mínimo nutricionista, psicólogo e psiquiatra especialistas em transtornos alimentares. É importante ressaltar que é necessário que seja especialista, pois a orientação do profissional não especializado pode agravar o quadro. O tratamento pode ser ambulatorial, mas em casos mais graves é necessário internação.
'E não há exames capazes de detectar uma anorexia ou de uma bulimia. Assim como as outras doenças psiquiátricas não há exames que diagnostiquem essas doenças, pois muitas vezes seus exames podem estar normais (o que não significa que estão saudáveis). A necessidade do uso de medicações que contribuam no tratamento depende de cada caso. Mas é importante ressaltar que não há uma medicação para tratamento específico da anorexia nervosa ou bulimia nervosa'.

Qual o papel da família no tratamento dos transtornos?
Cezar Vicente Jr: 'A família é de extrema importância tanto na detecção precoce quanto na colaboração durante o tratamento. Geralmente a pessoa com transtorno alimentar se sente muito mal por não ter suas questões com relação ao peso compreendidas (a maioria das pessoas ainda acha que é 'frescura' e a família pode ajudar dando apoio, que é ajudar a pessoa a procurar ajuda e dar suporte ao tratamento. A grande maioria dos programas de tratamento para transtornos alimentares inclui a família de algum jeito'.
'No site do GENTA ou no Facebookdo grupo é possível encontrar campanhas locais de tratamento para transtornos alimentares no Brasil inteiro e a maioria oferece tratamento gratuito'.